Inversão de Papéis
Aí quando estou no limite, querendo jogar tudo pro alto ela faz sinal pra eu falar baixo pois o passarinho está dormindo.
Tive vontade de dizer pra ela que o passarinho não estava dormindo, que morreu de uma maneira estúpida quando não viu o vidro da janela e por isso estava lá, caído na calçada.
Errando de maneira humana, o passarinho se distraiu com o reflexo da luz do sol na vidraça, se perdeu, cegou e morreu.
Eu quis dizer pra ela que é assim que a gente morre. Quis dizer que quando a gente fica muito focado e pára de enxergar as coisas simples que acontecem todos os dias, a gente acaba batendo na vidraça da rotina, arrebentando o nariz na porta da vida e morrendo por dentro, sabe?
Eu quis falar. Mas não precisava. Ela era que estava me dizendo. Dizendo pra eu desviar minha atenção do reflexo da luz do sol no vidro. Que o passarinho lá no chão parecia estar tão em paz que só podia estar dormindo.
Era ela me ensinando outra vez.